Carta para a mãe que eu fui
- Marcela Garcia
- 8 de abr. de 2020
- 8 min de leitura

Me peguei olhando as fotos do dia que o Vicente nasceu (faço isso às vezes..) e vendo essa foto tantas coisas me passaram pela cabeça que decidi te escrever uma carta. Uma carta para essa mãe recém nascida da foto, ainda inchada do parto. Te escrevo três meses depois do nascimento dele. Longe de ser uma mãe super experiente, mas passamos por tanto em tão pouco tempo que deu vontade de escrever essas memórias em forma de carta.
Em menos tempo que imagina você vai conseguir andar sem se curvar, os pontos vão incomodar muito pouco, e tirá-los daqui a 15 dias vai ser muito tranquilo, não vai doer, eu te juro! Sei que você vai ficar com medo, mas não precisa.
Sabe as estrias na sua barriga? Por mais que sejam cicatrizes do acolhimento mais lindo feito por você, elas vão te incomodar. A boa notícia é: você vai fazer um tratamento que vai quase que sumir com elas e você vai se sentir bonita de novo! Outra coisa sobre sua aparência: “seu cabelo vai cair horrores na amamentação” - não procede! Seu cabelo segue normal, sem cair. Uhu, menos mal. Ele vive preso em um coque o dia todo pro bebê não arrancá-lo fio a fio, mas isso é só um detalhe, o cabelo ainda está aí!
Amamentar vai te surpreender, não precisa ter medo de não conseguir. Sei que agora está difícil de se encontrar nessa nova tarefa - é a tal da pega correta, é o tempo de mamada, é qual mama ele tem que mamar dessa vez, é o sutiã, a blusa de amamentação, tantas coisas ao mesmo tempo... mas calma! Vai dar muito certo, você tem sim leite suficiente pro seu filho e você vai vencer todas as dificuldades que aparecerão. Em poucos dias você já terá dominado a dinâmica do amamentar em si, vai por mim, continua seguindo seus instintos! Até tirar leite você vai tirar pra deixar de reserva em uma emergência, quem diria? Vai descobrir que não tem nada mais gratificante do que ver seu filho crescendo com seu leite, vai comemorar cada vez que ver na balança que ele está engordando. Todo sacrifício e doação que você se propôs a fazer vai valer a pena pelos momentos íntimos e de amor que serão só de vocês dois. Aquele olhar e aquela mãozinha segurando seu dedo realmente são inesquecíveis.
Ah, e sabe aquelas regras? Que você aprendeu no curso de gestantes, na internet e em livros? Banho na banheira de acordo com tal passo a passo, dormir de barriga pra cima, berço sem ninho nem protetores de berço, colocar o bebê acordado pra ele aprender dormir sozinho... então, deixa eu te contar: você vai tentar seguí-las, mas vai descobrir que o Vicente gosta mesmo é de tomar banho no chuveiro, só relaxa pra valer dormindo de lado, adora o ninho que você fez pra ele se sentir acolhido no berço e só pega no sono no colo... que tal?
Outra coisa muito importante... sabe aquele momento sombrio, ao anoitecer, que te bate uma angústia e as lágrimas insistem em cair? Ele vai logo logo se converter na melhor hora do seu dia. É a hora que você começa o ritual do sono tão gostoso de fazer com seu bebê: amamentar, dar banho em família no chuveiro, fazer massagem nele, mais mamá e por fim, berço! E então, chega a hora de ficar com seu marido à sós, momentos tão gostosos e necessários, já que vocês não são só pai e mãe, são também (e em primeiro lugar!) marido e mulher. Só que antes de dormir, você vai dar uma passadinha no quarto dele pra vê-lo dormindo, igual um anjinho... Você torce e reza pra ele dormir pra você poder descansar um pouco e quando ele dorme... sente saudades! Vai entender...
Deixa eu te contar do Marido que virou Pai... Aquele que nunca havia pegado recém nascido no colo, mas que você já deve ter visto que pega e cuida do Vicente com tanto amor quanto você, uma habilidade e cuidado impressionante - parece que nasceu pra isso. Verá que ele o veste depois do banho melhor que você, e que no primeiro mês de vida ele vai dormir noites inteiras com o bebê no peito, juntinhos, e seu coração vai derreter. Durante as terríveis cólicas é no colo do Pai que ele vai se acalmar. E então você vai se apaixonar ainda mais por ele, mesmo achando que isso não é possível. Vai perceber que não poderia ter escolhido melhor companheiro de vida, e que esse papo de que filho afasta o casal é também furada, vocês vão estar mais próximo do que nunca.
Por conta do trabalho, o seu Marido vai ter que viajar logo no segundo mês de vida do bebê, vai ficar ao todo três semanas fora. Calma! Nesse período você vai se mudar temporariamente pra casa dos seus pais. Seu amor pela sua Mãe, que já estava indo te ajudar todos os dias em casa enquanto o marido ia trabalhar, vai transbordar. Pelo seu Pai também, pela sua Irmã também, Sogra, Sogro, Cunhada, por toda ajuda, carinho e cuidado com você e com o bebê, mas a sua Mãe, agora que você também é mãe, ganha outro significado. “Então ela passou por tudo isso que eu estou passando? Fez tudo isso por mim? Me ama esse tanto?”. Você vai se perguntar isso sempre que ela cuidar do bebê ou de você. Principalmente de você. O bebê traz um encantamento e todos querem vê-lo, pegá-lo, mas são poucas as pessoas que olham de verdade pra mãe. Já tinham te falado isso antes dele nascer, e é verdade. Sua Mãe cuidará de você o tempo todo. Se essa viagem por um lado privou o Pai de alguns momentos importantes com o bebê, trouxe dias e madrugadas de cuidado, de conversas e de silêncios com a sua Mãe que você nunca se vai esquecer. Na verdade toda a família, dos dois lados, viveu momentos marcantes nesse período: deram banho, ninaram o bebê, cuidaram dele e acolheram você.
Vai acontecer muita coisa nessas três semanas do Marido longe, em que dias se emendarão com noites, e não vai ser fácil, não vou mentir pra você: ele vai ter uma cólica descomunal que vai te fazer chorar junto com ele inúmeras vezes... você vai se perguntar se tem alguma coisa errada com o bebê e vai decidir trocar de pediatra, decidindo levá-lo no Dr. Evandro, que foi o seu pediatra desde bebê até a adolescência. Assim que trocar olhares com ele (já com quase 80 anos de idade!) e perceber que os dois se emocionaram com esse reencontro que a vida proporcionou, vai saber e sentir que não teria pessoa melhor pra cuidar e ser o médico do seu filho. Você vai descobrir que o Vicente não tem cólica, ele tem refluxo, e a partir dessa consulta, que vai te encher de confiança e orientações certeiras, o céu começará a clarear. E seu marido vai voltar e tudo vai começar a se encaixar!
Logo depois disso você vai perceber, aprendendo um pouco sobre esse mundo louco da maternidade, que a chupeta que você deu pra ele no terceiro dia de vida (e que ficou super feliz por ele ter pegado de primeira e tal), vai dar confusão de bico. Sim, a chupeta que ele adora, que o acalma, que o faz dormir... Ele vai começar a rejeitar seu peito e você não vai saber o que fazer, sem nem desconfiar da chupeta, mas calma! Uma amiga vai te enviar aleatoriamente um vídeo sobre isso bem no dia que você está angustiada, coisa de Deus mesmo... E você vai perceber que ele está confundindo seu bico com a chupeta... E então você vai tomar uma das decisões mais corajosas e acertadas até agora: vai tirar a chupeta. Do nada. De uma hora pra outra, sumir com as chupetas. E não vai ser fácil. Vai demandar muito colo, peito, colo e mais um pouco de peito e algumas noites dele chorando, mas VAI DAR CERTO! O tempo de mamadas por dia vai quadruplicar e isso vai ser maravilhoso pra você e pra ele, você vai vê-lo mamando direitinho novamente e encorpando dia a dia. A amamentação entrará nos trilhos para não mais sair!
Falando sobre amizades, essa sua amiga que te mandou o vídeo salvador da confusão de bico, que não era tão próxima assim antes da gravidez, vai ser fundamental nesse processo todo de maternar, já que os filhos de vocês têm apenas pouco mais que 15 dias de diferença. Vocês, que são tão diferentes no jeito de ser, vão perceber que são mães muito parecidas e ficarão muito próximas, compartilhando diariamente dicas, conselhos e também angústias, dúvidas e confidências - muitas vezes no meio da madrugada, quando vocês estarão as duas na solitária amamentação da madrugada. Vocês estão criando os filhos meio que juntos e você vai sentir por ela e pelo filho dela um carinho muito especial e vai ser muito grata por essa amizade.
Você também terá conversas muito significativas com outras mães e mulheres: amigas próximas e também distantes, primas, ex-colegas de trabalho, pessoas que você encontrou poucas vezes na vida mas que te mandaram uma mensagem pelo instagram... Vai perceber a força que a maternidade tem de unir as mulheres, do tanto de amor que você vai receber. Quem diria que a maior expressão da tal da sororidade seria justamente na maternidade? Você também vai se pegar rezando todos os dias para que outras mulheres, amigas e familiares, também tenham filhos e não demorem! Você quer que todas vivenciem essa experiência maravilhosa que você está vivendo porque é muito transformadora, você vai se sentir muito diferente - pra melhor, claro. Mais humana, mais caridosa, mais grata e mais forte.
E então vai chegar a quarentena, que é onde estamos hoje. Você está sentada? Porque você não vai acreditar no que eu vou contar...! Vai vir a quarentena. Sim, o mundo inteiro vai ficar em casa por conta de um vírus, meio que sem prazo para poder sair novamente. E você, que morria de medo de ficar sozinha cuidando do bebê, que estava todos os dias contando com a ajuda da sua Mãe ou da sua Sogra enquanto seu marido ia trabalhar, vai ficar só e vai ter que se virar. Sim, seu marido estará em casa, mas trabalhando em home office, e o cuidado do bebê será majoritariamente seu, por SEMANAS a fio. Você consegue acreditar nisso? Mas deixa eu te dar a melhor notícia até agora: esse período vai ser bom. Será muito exaustivo, num grau que eu não consigo descrever; vai ser carregado de saudades da família e amigos (a saudade vai ser cruel e vai doer, você vai chorar...); cheio de preocupações em relação à saúde do mundo e à economia; mas pra sua família e para você como mãe e mulher vai ser maravilhoso! A quarentena vai te trazer uma segurança enorme. Você vai descobrir que dá conta, que consegue tranquilamente cuidar do seu filho (e da casa, e de você). Vai perceber que (de novo!) você casou com o homem mais incrível e companheiro do mundo. E falando nele, sabe esse aperto no coração que você está sentindo de pensar que a licença paternidade do seu marido vai acabar e ele vai voltar a trabalhar e perder momentos com o filho, logo quando eles estavam se conhecendo? A quarentena vai curar isso. Você vai presenciar o vínculo do seu marido com seu filho se estreitar de uma forma que sem a quarentena isso demoraria a acontecer. Um vínculo que vem da convivência diária, que é o que eles estão tendo agora. Eles se reconhecem. Eles se divertem juntos. Vocês estão mais unidos do que nunca numa fase linda: Vicente começou a interagir mais, dá risadinhas e está todo durinho.
E você vai se dar conta, no meio dessa quarentena, quando o Vicente fizer três meses de vida, que você voltou... Voltou a se reconhecer no espelho como a Marcela que você era, só que com uma nova faceta, a de Mãe (e você morre de orgulho dela!). Voltou a cuidar da sua casa, cuidar de plantas, enfeitá-la para datas como a Páscoa! Voltou a cozinhar, e vai saber por quê, sentirá um prazer maior ainda em cozinhar. Voltou a escrever e também a ler, hobbies que te relaxam tanto e que te fazem bem... Voltou a ter as rédeas da sua vida!
Então o resumo do que eu quero te dizer nesse turbilhão do puerpério é o que tantas mulheres e mães incríveis te falaram assim que ele nasceu, mas quando estamos no olho do furacão custa a acreditar: as dificuldades vão passar. Sua rotina vai se ajeitar e as coisas vão se encaixar. Você vai ter sua vida de volta e ela será ainda melhor do que era antes, muito melhor. Pode acreditar em mim!